quarta-feira, 12 de junho de 2013

Venda de jogadores: a culpa é só do clube?

Tenho visto muitos torcedores do Botafogo, nas redes sociais, indignados com as prováveis saídas de jogadores nesta janela de meio de ano. Um dos jogadores a ser vendido deverá ser o zagueiro Dória; outro que deverá sair deverá ser o meio de campo Fellype Gabriel. A indignação aumenta após o Botafogo ter vendido Jadson, outra jovem promessa, para o futebol europeu. Muitos criticam a diretoria por não segurar seus jovens talentos. Mas, será que a culpa é apenas dos dirigentes?
Uma coisa que temos que levar em consideração é que, atualmente, o clube detém uma pequena parcela sobre os direitos dos jogadores. Meninos das categorias de base já vêm para o clube com seus direitos fatiados entre diversos empresários, cujo único interesse é vendê-los na primeira oportunidade para poderem ganhar dinheiro. Tendo maioria sobre os direitos do jogador, acabam tendo um poder de decisão maior na hora de decidir sobre a venda. É como uma empresa que possui ações no mercado. Quando se vai decidir alguma coisa, os sócios majoritários têm maior poder de decisão, de acordo com os percentuais de ações que possuem.
Em segundo lugar, há o interesse – geralmente, apenas financeiro – do próprio jogador. Influenciado pelos empresários, que mostram que ele poderá ganhar mais jogando na Europa ou em outros mercados no exterior, o jogador acaba cedendo à pressão e resolve fazer o seu pé-de-meia, enquanto ainda aparecem clubes interessados em seu futebol. Nesse meio, nem sempre a oportunidade bate duas vezes à porta. Assim, quando um clube mantém um jogador contra a sua vontade, este fica insatisfeito e, geralmente, seu futebol cai de produção.
Os clubes, hoje, não possuem tanto poder quanto deveriam ter. A Lei Pelé, se por um lado foi boa para os jogadores, que antes eram tratados quase como escravos, foi extremamente prejudicial para os clubes que, muitas vezes, gastam dinheiro na preparação de um garoto de sua base e, quando este está pronto, vai para a Europa sem atuar pelos profissionais do clube que o formou e, muitas vezes, sem trazer nenhum retorno financeiro para o clube.
Uma pesquisa demonstrou que – informação do jornalista Mauro César Pereira, dos canais ESPN –, de todo o dinheiro gerado pelo futebol, direta ou indiretamente, apenas cerca de 7% vai para os clubes. O resto é dividido entre patrocinadores, fornecedora de material esportivo, empresários e trabalhadores autônomos que se valem do futebol para ganhar seu dinheiro – geralmente, vendedores de bebidas, comidas, camisas e bandeiras de clubes. O clube, que é o verdadeiro gerador de toda essa receita, é quem fica com a menor fatia do bolo.
É claro que há um certo conformismo dos dirigentes, que não fazem nada para quebrar essa cadeia, mas há também interesses poderosos por trás: empresários, televisão, políticos, CBF etc.
Assim, é muito fácil apenas criticar os dirigentes quando estes vendem alguns jogadores. Porém, muitas vezes isto é feito para que o clube possa se manter. A venda de um jogador, muitas vezes, trás para o clube uma injeção financeira. Além disso, a torcida do Botafogo, que vem mantendo uma tradição de não comparecer aos jogos, não gera receita de bilheteria. Então, resta ao clube a alternativa de vender alguns de seus valores para manter seus compromissos financeiros em dia – a venda de Dória e/ou Fellype Gabriel servirá para pagar salários atrasados.
O que precisa ser feito é uma reformulação no futebol. Na Alemanha, por exemplo, havia seis federações distintas realizando campeonatos dentro do país, uma espécie de campeonatos estaduais da Alemanha. Os clubes reuniram-se, criaram uma Liga forte – a Bundesliga – e fortaleceram o futebol alemão, ao mesmo tempo em que se fortaleceram. Hoje, a Alemanha possui o campeão e o vice-campeão europeus. Mesmo na Segunda Divisão alemã, a média de público não é inferior a quarenta mil pagantes. Na Primeira Divisão, o time com menor média de público é o Herta Berlim, com média de cinquenta mil pessoas por jogo. No Brasil, quando temos um público desses em um jogo do Campeonato Brasileiro, este fato vira manchete em todos os jornais. 

Temos um mal grassando no nosso futebol, sim, e este mal tem nome: CBF – Confederação Brasileira de Falcatruas. Somente quando os times formarem uma Liga independente – e o Clube dos Treze parecia ser o sinal disso, mas se perdeu em políticas internas e interesses particulares – poderão voltar a receber a maior fatia da renda que eles próprios geram, podendo fortalecerem-se e fortalecerem o futebol brasileiro. Enquanto se mantiverem sob o “cabresto” da CBF, continuarão de pires na mão, sujeitos aos interesses particulares e monopolizantes da CBF e da televisão.          

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