Tenho visto muitos torcedores do
Botafogo, nas redes sociais, indignados com as prováveis saídas de jogadores
nesta janela de meio de ano. Um dos jogadores a ser vendido deverá ser o
zagueiro Dória; outro que deverá sair deverá ser o meio de campo Fellype
Gabriel. A indignação aumenta após o Botafogo ter vendido Jadson, outra jovem
promessa, para o futebol europeu. Muitos criticam a diretoria por não segurar
seus jovens talentos. Mas, será que a culpa é apenas dos dirigentes?
Uma coisa que temos que levar em
consideração é que, atualmente, o clube detém uma pequena parcela sobre os
direitos dos jogadores. Meninos das categorias de base já vêm para o clube com
seus direitos fatiados entre diversos empresários, cujo único interesse é
vendê-los na primeira oportunidade para poderem ganhar dinheiro. Tendo maioria
sobre os direitos do jogador, acabam tendo um poder de decisão maior na hora de
decidir sobre a venda. É como uma empresa que possui ações no mercado. Quando se
vai decidir alguma coisa, os sócios majoritários têm maior poder de decisão, de
acordo com os percentuais de ações que possuem.
Em segundo lugar, há o interesse –
geralmente, apenas financeiro – do próprio jogador. Influenciado pelos
empresários, que mostram que ele poderá ganhar mais jogando na Europa ou em
outros mercados no exterior, o jogador acaba cedendo à pressão e resolve fazer
o seu pé-de-meia, enquanto ainda aparecem clubes interessados em seu futebol.
Nesse meio, nem sempre a oportunidade bate duas vezes à porta. Assim, quando um
clube mantém um jogador contra a sua vontade, este fica insatisfeito e,
geralmente, seu futebol cai de produção.
Os clubes, hoje, não possuem tanto
poder quanto deveriam ter. A Lei Pelé, se por um lado foi boa para os
jogadores, que antes eram tratados quase como escravos, foi extremamente
prejudicial para os clubes que, muitas vezes, gastam dinheiro na preparação de
um garoto de sua base e, quando este está pronto, vai para a Europa sem atuar
pelos profissionais do clube que o formou e, muitas vezes, sem trazer nenhum
retorno financeiro para o clube.
Uma pesquisa demonstrou que –
informação do jornalista Mauro César Pereira, dos canais ESPN –, de todo o
dinheiro gerado pelo futebol, direta ou indiretamente, apenas cerca de 7% vai
para os clubes. O resto é dividido entre patrocinadores, fornecedora de
material esportivo, empresários e trabalhadores autônomos que se valem do
futebol para ganhar seu dinheiro – geralmente, vendedores de bebidas, comidas,
camisas e bandeiras de clubes. O clube, que é o verdadeiro gerador de toda essa
receita, é quem fica com a menor fatia do bolo.
É claro que há um certo
conformismo dos dirigentes, que não fazem nada para quebrar essa cadeia, mas há
também interesses poderosos por trás: empresários, televisão, políticos, CBF
etc.
Assim, é muito fácil apenas
criticar os dirigentes quando estes vendem alguns jogadores. Porém, muitas
vezes isto é feito para que o clube possa se manter. A venda de um jogador, muitas
vezes, trás para o clube uma injeção financeira. Além disso, a torcida do
Botafogo, que vem mantendo uma tradição de não comparecer aos jogos, não gera
receita de bilheteria. Então, resta ao clube a alternativa de vender alguns de
seus valores para manter seus compromissos financeiros em dia – a venda de
Dória e/ou Fellype Gabriel servirá para pagar salários atrasados.
O que precisa ser feito é uma
reformulação no futebol. Na Alemanha, por exemplo, havia seis federações
distintas realizando campeonatos dentro do país, uma espécie de campeonatos
estaduais da Alemanha. Os clubes reuniram-se, criaram uma Liga forte – a
Bundesliga – e fortaleceram o futebol alemão, ao mesmo tempo em que se
fortaleceram. Hoje, a Alemanha possui o campeão e o vice-campeão europeus. Mesmo
na Segunda Divisão alemã, a média de público não é inferior a quarenta mil
pagantes. Na Primeira Divisão, o time com menor média de público é o Herta
Berlim, com média de cinquenta mil pessoas por jogo. No Brasil, quando temos um
público desses em um jogo do Campeonato Brasileiro, este fato vira manchete em
todos os jornais.
Temos um mal grassando no nosso
futebol, sim, e este mal tem nome: CBF – Confederação Brasileira de Falcatruas.
Somente quando os times formarem uma Liga independente – e o Clube dos Treze
parecia ser o sinal disso, mas se perdeu em políticas internas e interesses
particulares – poderão voltar a receber a maior fatia da renda que eles
próprios geram, podendo fortalecerem-se e fortalecerem o futebol brasileiro.
Enquanto se mantiverem sob o “cabresto” da CBF, continuarão de pires na mão,
sujeitos aos interesses particulares e monopolizantes da CBF e da
televisão.
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