No programa Bate-Bola, do canal
ESPN, da última quarta-feira, o diretor do departamento de defesa do torcedor
do Ministério do Esporte, Paulo Castilho, em primeira mão, informou sobre uma
proposta que está sendo analisada e que pode ter o Palmeiras como clube piloto
para testar esta ideia: o clube formará uma torcida, subsidiada por ele com
transportes, ingressos etc., a qual terá uma espécie de supervisor para cada
cem torcedores. Esta torcida teria os seus membros cadastrados e, para torcer,
teriam que usar o escudo do clube e cantar músicas autorizadas pelo mesmo. Esta
ideia, segundo Paulo Castilho, teria o propósito de acabar com as torcidas
organizadas, já que não utilizariam marcas próprias e nem cantariam músicas agressivas,
que poderiam incitar a violência. O jornalista Lúcio de Castro, que participava
do debate, mostrou-se totalmente contrário a esta ideia, e eu concordo
plenamente com ele.
A ingenuidade desta proposta,
partindo de alguém que parece bem intencionado, como é o caso de Paulo Castilho,
é de assustar. Na verdade, o que se pretende fazer é, apenas, institucionalizar
as torcidas organizadas, em vez de se acabar com elas. Na prática, a coisa
ficaria mais ou menos do jeito que está, já que os clubes iriam subsidiar estes
torcedores, o que já vem sendo feito atualmente por vários grandes clubes
brasileiros. Os torcedores irão se transformar em uma espécie de funcionários
do clube, torcendo de uma maneira mecanizada, autorizada e orientada pelos
clubes.
As Leis brasileiras permitem que
torcedores – assim como qualquer outro cidadão – se associem e formem
organizações formais para torcerem por seus clubes. Todavia, esta mesma Lei tem
o poder de intervir e encerrar as atividades destas organizações caso estas
ajam de maneira contrária às leis vigentes no país, ou seja, comercializem ou
distribuam drogas, depredem o patrimônio público e/ou privado, utilizem-se de
violência antes, durante ou depois dos jogos, etc. Inclusive, as torcidas
paulistas Gaviões da Fiel e Mancha Alviverde tiveram que encerrar suas atividades
por conta dos vários tumultos nos quais se envolveram. Entretanto, continuam
ativas e comparecendo aos estádios.
Colocar as torcidas organizadas
sob a tutela dos clubes seria como se a Polícia Militar colocasse sob a sua
tutela pessoas pertencentes a grupos de extermínio, com a pretensão de
controlar estas pessoas para que os extermínios acabassem. O que aconteceria,
de fato, é que os extermínios continuariam, só que agora com o amparo da Lei,
já que estas pessoas continuariam matando, mas teriam a desculpa de que o
criminoso reagiu à sua voz de prisão. Colocar torcedores sob a proteção dos
clubes não poria fim às brigas. Quando duas torcidas se enfrentassem, uma
colocaria a culpa na outra, alegando que apenas se defendeu de uma agressão.
Sem contar que, na torcida organizada pelo Corinthians, por exemplo, estariam
diversos membros da Gaviões da Fiel, e na organizada pelo Palmeiras, estariam
diversos membros da Mancha Alviverde. Seriam, praticamente, as mesmas torcidas,
apenas com um nome diferente – o que já ocorre atualmente – e um aspecto mais
“legal”, do ponto de vista jurídico.
A institucionalização das torcidas
organizadas, pelos clubes, vai manter o status quo atual, que tem sido tão
nocivo ao futebol. Os dirigentes continuarão reféns destes grupos de
torcedores, bem como os utilizarão para fins políticos e eleitoreiros.
O que precisa ser feito é punir,
de maneira rigorosa, pessoas que se envolvam em atos de violência, quer causem
ou não mortes. Há poucos dias, um torcedor do São Paulo foi apanhado portando
um sinalizador, do tipo que vitimou o garoto boliviano no jogo do Corinthians.
Este torcedor deverá se manter afastado dos estádios durante noventa dias.
Terminado este prazo, ele voltará a frequentar os estádios e, quem sabe, levará
outro sinalizador. Se a punição fosse mais severa, afastando-o por, pelo menos,
dois anos, ele e outros torcedores que costumam frequentar os estádios
pensariam duas vezes antes de cometer alguma infração.
Institucionalizar as torcidas
organizadas não é a solução para o problema atual. A “solução” apontada por
Paulo Castilho dá a impressão de que as torcidas passarão a ser controladas
pelos clubes, evitando que se metam em confusões. Entretanto ,
esse controle é ilusório. Esse tipo de torcida talvez passe a ter mais força
até mesmo do que as organizadas atuais, pois estarão mais intimamente ligadas a
seus respectivos clubes, chanceladas pelas suas diretorias.
Torcer é um ato de paixão. O
torcedor não pode ser visto como um funcionário do clube, contratado para
torcer por ele. O que precisa ser feito é criar um sistema que obrigue o
torcedor a torcer com responsabilidade e civilidade, afastando dos estádios
aqueles que se recusarem a isto.
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