sexta-feira, 15 de março de 2013

A “estatização” das torcidas organizadas


No programa Bate-Bola, do canal ESPN, da última quarta-feira, o diretor do departamento de defesa do torcedor do Ministério do Esporte, Paulo Castilho, em primeira mão, informou sobre uma proposta que está sendo analisada e que pode ter o Palmeiras como clube piloto para testar esta ideia: o clube formará uma torcida, subsidiada por ele com transportes, ingressos etc., a qual terá uma espécie de supervisor para cada cem torcedores. Esta torcida teria os seus membros cadastrados e, para torcer, teriam que usar o escudo do clube e cantar músicas autorizadas pelo mesmo. Esta ideia, segundo Paulo Castilho, teria o propósito de acabar com as torcidas organizadas, já que não utilizariam marcas próprias e nem cantariam músicas agressivas, que poderiam incitar a violência. O jornalista Lúcio de Castro, que participava do debate, mostrou-se totalmente contrário a esta ideia, e eu concordo plenamente com ele.
A ingenuidade desta proposta, partindo de alguém que parece bem intencionado, como é o caso de Paulo Castilho, é de assustar. Na verdade, o que se pretende fazer é, apenas, institucionalizar as torcidas organizadas, em vez de se acabar com elas. Na prática, a coisa ficaria mais ou menos do jeito que está, já que os clubes iriam subsidiar estes torcedores, o que já vem sendo feito atualmente por vários grandes clubes brasileiros. Os torcedores irão se transformar em uma espécie de funcionários do clube, torcendo de uma maneira mecanizada, autorizada e orientada pelos clubes.
As Leis brasileiras permitem que torcedores – assim como qualquer outro cidadão – se associem e formem organizações formais para torcerem por seus clubes. Todavia, esta mesma Lei tem o poder de intervir e encerrar as atividades destas organizações caso estas ajam de maneira contrária às leis vigentes no país, ou seja, comercializem ou distribuam drogas, depredem o patrimônio público e/ou privado, utilizem-se de violência antes, durante ou depois dos jogos, etc. Inclusive, as torcidas paulistas Gaviões da Fiel e Mancha Alviverde tiveram que encerrar suas atividades por conta dos vários tumultos nos quais se envolveram. Entretanto, continuam ativas e comparecendo aos estádios.
Colocar as torcidas organizadas sob a tutela dos clubes seria como se a Polícia Militar colocasse sob a sua tutela pessoas pertencentes a grupos de extermínio, com a pretensão de controlar estas pessoas para que os extermínios acabassem. O que aconteceria, de fato, é que os extermínios continuariam, só que agora com o amparo da Lei, já que estas pessoas continuariam matando, mas teriam a desculpa de que o criminoso reagiu à sua voz de prisão. Colocar torcedores sob a proteção dos clubes não poria fim às brigas. Quando duas torcidas se enfrentassem, uma colocaria a culpa na outra, alegando que apenas se defendeu de uma agressão. Sem contar que, na torcida organizada pelo Corinthians, por exemplo, estariam diversos membros da Gaviões da Fiel, e na organizada pelo Palmeiras, estariam diversos membros da Mancha Alviverde. Seriam, praticamente, as mesmas torcidas, apenas com um nome diferente – o que já ocorre atualmente – e um aspecto mais “legal”, do ponto de vista jurídico.     
A institucionalização das torcidas organizadas, pelos clubes, vai manter o status quo atual, que tem sido tão nocivo ao futebol. Os dirigentes continuarão reféns destes grupos de torcedores, bem como os utilizarão para fins políticos e eleitoreiros.
O que precisa ser feito é punir, de maneira rigorosa, pessoas que se envolvam em atos de violência, quer causem ou não mortes. Há poucos dias, um torcedor do São Paulo foi apanhado portando um sinalizador, do tipo que vitimou o garoto boliviano no jogo do Corinthians. Este torcedor deverá se manter afastado dos estádios durante noventa dias. Terminado este prazo, ele voltará a frequentar os estádios e, quem sabe, levará outro sinalizador. Se a punição fosse mais severa, afastando-o por, pelo menos, dois anos, ele e outros torcedores que costumam frequentar os estádios pensariam duas vezes antes de cometer alguma infração.
Institucionalizar as torcidas organizadas não é a solução para o problema atual. A “solução” apontada por Paulo Castilho dá a impressão de que as torcidas passarão a ser controladas pelos clubes, evitando que se metam em confusões. Entretanto, esse controle é ilusório. Esse tipo de torcida talvez passe a ter mais força até mesmo do que as organizadas atuais, pois estarão mais intimamente ligadas a seus respectivos clubes, chanceladas pelas suas diretorias.
Torcer é um ato de paixão. O torcedor não pode ser visto como um funcionário do clube, contratado para torcer por ele. O que precisa ser feito é criar um sistema que obrigue o torcedor a torcer com responsabilidade e civilidade, afastando dos estádios aqueles que se recusarem a isto.                     

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